Entrevista de João Paulo Machado de Freitas


Uma loucura missionária

Como começa a sua história em Cascais?
 
Nasci na Baixa da Banheira mas com 3 anos vim para Cascais viver com os meus avós paternos. Quem conhece bem os meus avós sabe que são pessoas de fé, que nos foram educando nesta tradição de fé, de rezar, vir à missa. Vinha sempre com o meu avô à missa das 12, ainda no tempo do Padre Raul. Devia ter uns cinco ou seis anos e impressionava-me ver uma pessoa tão velha com tantas missas. Acabava uma e ia para outra. E estava sempre disponível para conversar, confessar. De forma silenciosa foi algo que foi mexendo comigo, foi-me questionando: então e eu, também não posso?

Como foi procurar resposta para essa pergunta?

 
Quando tinha dez anos, o meu avô faleceu. Nessa altura conheci um movimento missionário de leigos ligado à Congregação do Espírito Santo e me convidou para uma festa. Quando ouvia os testemunhos missionários, de sítios onde não havia missa, ou que as pessoas tinham de esperar um ano… Pensei: também quero ser como um deles. Inscrevi-me nos grupos vocacionais e ali fui crescendo, vendo como os seminaristas viviam, percebendo o que é isto da missão.

E a vida na paróquia?
 
Fiz aqui a catequese e a primeira comunhão. Fui acólito muito tempo, e cada vez tinha mais gosto pelo que fazia.

E quando se deu a mudança?
 
Num acampamento, um dos responsáveis disse-me: este ano se quiseres, podes entrar no seminário. Era Agosto, tinha 14 anos, cheguei a casa e disse: em setembro, vou arrumar as malas e vou para o seminário.

Como é que a sua avó reagiu?

 
Ficou contente mas depois à medida que a data se ia aproximando, foi ficando triste.

Como foram os primeiros tempos de seminário?
 
Fui para Barcelos. Entrámos oito e no final do ano fiquei só eu. Foi difícil, para quem estava habituado ao clima de Cascais, ir viver para uma aldeia isolada, no cimo do monte, era horrível. Eu não conhecia ninguém e a rotina era acordar cedo, rezar a toda a hora. Depois fui para Braga, onde fiz o 11 e 12º ano, e aí já foi melhor porque tínhamos que passar pelas paróquias, dar testemunho vocacional, animar os outros. Depois vim para a Torre de Aguilha (São Domingos de Rana) fazer dois anos de Teologia. A parte pastoral foi no Bairro dos Navegadores, em Talaíde, que faz parte da capelania dos africanos. Foi o que me animou mais. A missa era um ambiente africano, músicas, danças. Depois fui convidado a fazer uma experiência missionária.

Para onde?

Interrompi os estudos e fui para Cabo Verde, contactar com outras culturas. Sabemos a teoria mas depois contactamos com o povo e vemos como é diferente. Fiquei apenas seis meses devido a problemas de saúde e dificuldades na missão. Depois estive um ano em casa da minha avó a tratar-me e fui para o Porto.

Como foi essa experiência?

Fui para uma paróquia no meio da cidade mas onde havia muita prostituição, tráfico de droga. Foi um trabalho desafiante mas bonito, gostei imenso. Fazíamos visitas às casas, à prisão, animações de rua, etc. Pensamos sempre que a missão é lá fora, mas estava ali, no meio da cidade. 

Como foi o trabalho nas prisões?

O ambiente na prisão é muito pesado... Mais do que dizer “olha que Deus perdoa”, foi um ambiente de escuta, de compreender a revolta deles. De escutar sem julgar. É difícil. Na teologia é fácil, mas escutar a vida é difícil. Como vamos entrar neste diálogo? Como levar uma proposta de alegria a um idoso acamado que só fala de morte? Levamos a palavra de Deus de uma forma mais mundana. Se Cristo incarnou, é nestas coisas que as pessoas se sentem consoladas. É uma palavra que anima.
Seguiu-se o desafio de ir ao Brasil, durante um mês, trabalhar numa zona perigosa do Rio de Janeiro. Quando chegámos, o animador da paróquia dizia: há uma semana uma criança de 12 anos morreu com um tiro na cabeça. E aí nós vemos que a missão tem muitas frentes. E pensamos: o que vamos fazer neste ambiente? Demos formação em escolas, onde vimos jovens com armas. Sabemos que é semear, e não sabemos onde vai cair. Se calhar fica alguma coisa.

E, entretanto, acabou o curso e fez os votos nos Espiritanos?

Em 2012, interrompi a experiência no Porto e fui para França aprender a língua francesa e fazer o noviciado que é a preparação dos primeiros votos, que fiz em 2013. Depois voltei e acabei o curso.

Como surgiu a missão em Angola?

Em 2015 fui para a missão católica de Kalandula, em Malange. Cheguei numa fase difícil, porque éramos para ser três nessa missão. Mas dias antes, no regresso de uma atividade com catequistas, um deles teve um acidente de carro e morreu, juntamente com dois jovens. Lá é desafiante porque somos pau para toda a colher. Estou com um padre com 78 anos, que vive lá há mais de 50 anos, e temos 140 comunidades para assistir.  É quase uma diocese. Estou também na direção de uma escola, com 1700 alunos, num ambiente rural. Há coisas chocantes para a nossa cultura, como as raparigas ainda engravidarem aos 13 anos.
As condições são más, ainda este ano morreram 10 crianças. As famílias ainda pensam que os filhos não devem ir à escola, que têm mais sucesso a trabalhar no campo. Há ainda muita corrupção também. Além disso, sendo europeu, não posso chegar lá e dizer: agora quem manda sou eu.
Além disso, é uma escola católica mas tem muitas pessoas de outras confissões, como a igreja adventista, testemunhas de jeová. E como vou levar o evangelho, como ajudá-los sem perder a identidade católica? A Igreja adventista rouba muita juventude, expandiram-se facilmente, porque dizem que a Igreja Católica é para os velhos. Além disso, eles conseguem organizar o culto todos as semanas, e nós não chegamos a todas as comunidades. Sou também o animador da juventude de toda a missão.

Há tensão entre adventistas e católicos?

Há um pouco. A missão é uma provocação silenciosa….

A formação já acabou? Quando foi ordenado diácono?

No dia 11 de fevereiro fui ordenado diácono e fiz a minha profissão perpétua na missão Kalandula. Foi a primeira ordenação lá. E isso fez com que alguns jovens dissessem: eu também quero. E criou-se um grupo vocacional e há jovens, rapazes e raparigas, em discernimento vocacional. No final do ano vão entrar dois jovens para o seminário.

Porque vai ser ordenado cá em Cascais?

Os espiritanos têm a tradição de ser ordenados na sua paróquia de origem, pois é uma forma de manifestar a universalidade da igreja. Saímos de um ambiente paroquial para uma missão universal. O nosso carisma é trabalhar junto dos mais pobres e ser enviado para onde ninguém quer ir. A missão de Kalandula é um bocadinho isso. Ninguém quer ir para lá porque é mato. Vivemos neste clima de pobreza. Aqui temos tudo e estamos sempre a reclamar. Lá não temos nada. Emagreci 20 quilos. Aqui percebe-se que quanto mais se dá mais se recebe. Temos que dar o máximo. No mundo de hoje estamos à procura de aventura, experiências e loucuras novas. E vivendo na missão sentimos isso: é uma vida radical. É uma loucura de fé, por causa de Cristo e com Cristo. Faz-nos sermos criativos para transmitir o essencial.

Uma última mensagem sobre a sua missão…

Vejo tudo isto como uma loucura. Temos tudo e vivemos descontentes porque nada é suficiente. Mas aqui é uma loucura saudável.  Deixar tudo para viver nas coisas mais simples, a que passamos a dar valor, é fantástico. Viver cada dia louco, é preciso entregar, ter criatividade, amar. Também é loucura para os outros que veêm um jovem a entregar-se à Igreja e a Deus. É escândalo para os gentios e loucura para os judeus.